ovos e benzeno

Um colega de profissão contou-me uma história que me fez lembrar de momentos importantes em minha formação profissional e pessoal.

Com vasta experiência internacional este colega confidenciou as peculiaridades de cada país no trato ambiental, especificamente no que se refere à contaminação subterrânea.

Contou aos atentos ouvintes, por exemplo, que os limites ou metas de remediação são totalmente distintos em cada país pelos quais passou, inclui-se aí o Brasil.

Duas historinhas então me vieram a cabeça após o papo com o colega geólogo.

A primeira remonta meu início como consultor, lá quando o doutor Everton narrava suas experiências internacionais em terras canadenses.

E então nos dizia que um grande pesquisador da área costumava citar o fato de que o limite para consumo de benzeno em água subterrânea nos Estados Unidos era dez vezes menor que o limite para o mesmo contaminante em água na Rússia.

Para aqueles que não estão acostumados ao assunto, a lei americana estabelecia em 5 microgramas o limite máximo para concentração do contaminante benzeno em um litro de água, enquanto a Rússia estabelecia este limite em 50 microgramas de benzeno por litro de água. Acima destas concentrações a água não seria considerada adequada ao consumo humano.

Reparem, mesmo contaminante, mesma água.

Dizia então o consultor que a vodca devia tornar os russos dez vezes mais resistentes que os americanos, única conclusão possível.

Ou hambúrguer torna os americanos dez vezes mais vulneráveis, vai saber.

Lembrei-me então de Salomão Schvartzman.

Este senhor comandava o programa Diário da Manhã, da rádio Cultura, nos idos de 2005, programa que me acompanhou ou que acompanhei durante dois importantes anos de minha vida, naqueles em que enfrentava o trânsito de São Paulo para chegar ao escritório em que trabalhava.

A lembrança de Salomão, na verdade, ocorreu por associação recente, em função de crônica que apresentou em seu quadro atual que é transmitido pela rádio BandNews FM e na qual teceu comentários sobre a “absolvição do ovo”.

Referia-se o cronista aos resultados das pesquisas divulgados em 2009  que tendem a reverter os conceitos malignos associados ao consumo de ovo e ao consequente aumento nos níveis de colesterol (matéria da Folha On Line em 05 de março de 2009).

Na crônica, cujos registros não encontrei para divulgação e cuja autoria também não garanto ser do jornalista, Salomão lamenta-se do tempo perdido e dos ovos não consumidos por precaução decorrente de toda informação científica que agora revelava-se equivocada.

Compreendem a relação entre ovos e benzeno?

Os resultados das pesquisas divulgados pela British Nutrition Foundation podem estar corretos, maravilha, e se futuramente se mostrarem errados?

Estaremos mais para russos ou americanos, menos ou mais conservadores em relação às restrições de consumo?

Para o tema ambiental esta pode ser uma questão de sobrevivência de mercado.

Conservadorismo na adoção de metas e limites é defensável, mas, por outro lado pode ser determinante para inviabilidade técnica e principalmente comercial de projetos de remediação.

Reparem, não defendo aqui uma flexibilização das metas de remediação, das concentrações a serem atingidas em solo, água, ar, efluentes, resíduos ou qualquer outra matriz que se apresente contaminada, premissas é que devem ser adotadas com bom senso para que os objetivos fiquem posicionados em uma faixa viável de alcance. Viável tecnicamente, viável economicamente.

Bom senso e não descaso.

A responsabilidade por passivos ambientais já está definida, por exemplo, em leis como a estadual 13.577, e dos responsáveis devem ser cobradas todas as medidas cabíveis para solução dos problemas e eliminação dos riscos associados, cobrança na proporção adequada para não inviabilizar o andamento do processo.

Não se trata de consdescendência, trata-se de gestão do tema para não colocá-lo na vala comum das boas intenções.

A solução dos problemas ambientais não passa pela necessidade ou desejo de quebra financeira das empresas responsáveis pelos passivos ambientais que, em muitos casos, há cerca de trinta anos sequer eram considerados passivos ambientais.

No sentido contrário dos ovos, que eram vilões e foram absolvidos.

Desejo apenas não me arrepender das áreas não remediadas assim como posso me arrepender dos ovos que não comi.

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