(a falta de) respeito, o valor da vida e o injustificável

fonte: Cecelia

 

Vou começar este artigo com uma afirmação que norteia todo o meu posicionamento sobre o assunto e já para dirimir qualquer mal-entendido sobre o que vou escrever, nada justifica qualquer atitude inconsequente e criminosa como a do bancário Ricardo Neis que atropelou um grupo de ciclistas em Porto Alegre na semana passada (para quem não está por dentro deste assunto de grande repercussão pode ler e ver em matéria da Folha On Line, aqui).

Desde que iniciei este blog escrevo sobre a necessidade de respeito ao espaço do próximo de forma a garantir a liberdade individual e a preservação da boa convivência social.

E isto serve para todos os atos.

Ao promoverem uma manifestação de apoio ao aumento do uso e bicicletas em detrimento do uso de veículos automotores os ciclistas não precisavam interromper o trânsito e comprometer o tráfego de veículos. Esta não deixa de ser uma forma de imposição de valores, ninguém é obrigado a concordar com a reivindicação dos ciclistas, por mais plausível que seja ou pareça.

Repetindo, nada justifica qualquer atitude inconsequente e criminosa como a que se viu naquela ocasião.

Um dos problemas da ação impositiva é a possibilidade de confronto, no episódio citado os ciclistas se sujeitaram a topar com um sujeito desequilibrado e criminoso como o que provocou o atropelamento em série. Todos os que convivem em sociedade estão sujeitos a topar com indivíduos desequilibrados, a manifestação acentuou a possibilidade de confronto.

Notem que situações deste tipo parecem cada vez mais comuns, os valores estão deturpados e as medidas corretivas e punitivas são ultrapassadas e ineficientes diante da evolução deste assunto.

Algo imensurável como o valor da vida é subestimado e reduzido a pó. Mata-se por qualquer coisa.

Quanto vale a vida de uma pessoa?

Para Ricardo Neis as vidas dos ciclistas pareciam não valer nada mais que sua pressa.

Para a assassina confessa da menina Lavínia Azeredo de Oliveira dois mil reais e a vingança por uma desilusão amorosa pareciam um preço justo pela vida da garota, leia na matéria do UOL.

Para os assassinos de Luiz Paulo Viola, que estava em companhia de Geuse Galera Flores, mãe do jogador Roger, uma moto pagaria a conta, mais informações no jornal do Brasil.

Suspeita-se que a vida de Julio César Grimm Bakri, aluno da Fundação Getúlio Vargas, valia uma paquera e uma prova de masculinidade, está na Folha.

Espero que entendam a argumentação do início do artigo, não desqualifico a causa dos ciclistas gaúchos, pelo contrário, eu a apoio, a maneira impositiva com a qual buscam novos adeptos é que talvez não seja mais a forma correta de abordagem do assunto em uma sociedade tão desequilibrada.

O espírito de cooperação tem perdido espaço para o espírito competitivo, muitas vezes trazendo a reboque o que pode haver de pior na competição, a vitória a qualquer custo, a total ausência de desportividade.

Para o motorista insano os ciclistas representavam opositores em uma disputa por espaço, a assassina de Lavínia estava em uma disputa passional, os assassinos de Luiz Paulo Viola disputavam posses e os do estudante disputavam a prova de sua macheza.

Em nenhuma das disputas houve vencedores. Todos perdem.

6 comentário para este post.

  1. [...] comentários para o artigo (a falta de) respeito, o valor da vida e o injustificável o meu amigo Samuel deixou dois vídeos muito interessantes sobre um caso de bullying ocorrido na [...]

    Responder

  2. Eis o reverso da moeda!!! E agora, qual a verdadeira história??? Aliás, importa mesmo saber a verdadeira história??? Será q essa briga toda não deveria nem ter começado??? E aí…??? Qual o veredicto??? Pra mim, ambos são inocentemente culpados!!!

    Responder

  3. Nada justifica. Todos perdem. E a cooperação deve ser a máxima em tudo.

    Aproveitando, segue um caso onde o ato desesperado não justifica, mas, será que talvez explica…??? (O youtube tirou o vídeo do ar por repúdio a qualquer manifestação de ódio, então, só achei o vídeo original embutido em um blog.)

    http://www.sedentario.org/videos/isso-que-da-procurar-encrenca-com-quem-ta-quieto-38459

    Não aprovo violência, mas, tudo tem um limite!!! Não digo q concordo c o revide, mas, foi um ato desesperado de alguém acuado!!! Só digo q podem existir outras formas de se defender em casos parecidos!!! O duro é pensar em uma no momento…!!!

    Segue abaixo, a entrevista com o menino que revidou. Já tem também a história do menino que começou a agressão, mas, não consegui nenhum link.

    O estranho é pensar que foi necessário um ato desesperado para que o menino encontrasse apoio e cooperação. Antes… ele não tinha nada, a não ser a Irmã.

    Ainda assim, pode até explicar, mas não justifica.

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  4. Publicado por Camilo em março 6, 2011 às 17:09 r r

    Flavio,
    faço minhas as suas palavras. E tantas outras que não consigo vocalizar tamanho o desespero.
    O Paulinho era meu tio e uma das pessoas mais legais que eu conheci. E, mais uma vez…uma pessoa boa virou estatística criminal.
    Continue escrevendo seus textos pois eles tem sido um retrato fiel da angustia desta geração.

    Responder

    • Publicado por ferlinisalles em março 7, 2011 às 21:40 r r

      Poxa, Camilo, não sabia deste teu parentesco, meus sentimentos.
      Por mais indignado que estejamos, ter uma pessoa querida envolvida em uma situação trágica como essa nos faz repensar as coisas.
      As estatísticas não transmitem a sensação necessária para que as coisas mudem. Cem, duzentos, trezentos, mil, nenhum número pode trazer de volta uma única pessoa que tínhamos próxima.
      E ainda assim a vida continua.
      Força, amigo. Um grande abraço para você.

      Responder

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