
fonte: Church Font
Fiz pela segunda vez o curso de batismo exigido pela igreja católica para os pais que desejam batizar seus filhos naquela religião.
Durante o curso de mais de três horas de duração, sob um frio de rachar dentaduras, assistimos às exposições e palestras de pessoas ligadas àquela paróquia e uma delas foi ministrada por um senhor muito eloquente e espirituoso que em meio às suas explanações fez questão de esclarecer que cada um tem sua missão pessoal, intransferível.
Ilustrou seu discurso citando uma passagem da Bíblia na qual um homem é orientado a deixar todos os seus bens para dedicar-se à sua sina de evangelização, o que em sua opinião era uma sina pessoal, evidenciando que a passagem bíblica não obriga todos os seus fiéis à abnegação material.
Eu não consegui deixar de associar o conteúdo daquela palestra a algumas coisas que tenho visto no mercado ambiental, especialmente sobre os seguidores quase religiosos do manual de gerenciamento de áreas contaminadas.
Nada contra o manual, já falei bem dele por aqui em alguns momentos, o foco não é esse.
O fato é que o a turminha do culto ao manual não enxerga nada além do seu mantra.
O manual é uma boa referência, não uma bíblia e, de qualquer forma, diante dos dois livros é preciso ao menos saber ler.
E está lá, logo na introdução do manual (grifos meus): ”Este manual, sendo o primeiro desse gênero na língua portuguesa, pretende ser um documento consultivo e propositivo. Consultivo no que diz respeito a fornecer aos técnicos da CETESB, de outros órgãos e de empresas privadas, os conceitos, informações e metodologias que venham uniformizar as ações dessas instituições que deverão agir em conjunto para a solução dos problemas gerados por estas contaminações. Propositivo no sentido de que serve para mostrar as propostas da equipe do projeto em termos de atuação e do estabelecimento de metodologias de trabalho a serem seguidas nas futuras ações da CETESB em termos de áreas contaminadas“.
Onde é que está escrito que toda área contaminada é igual?
Onde é que está escrito que uma área contaminada é igual à outra?
Onde é que está escrito que existem duas áreas contaminadas iguais?
Onde é que está escrito que o manual deve ser seguido cegamente?
Dá para entender a relação com a patacoada religiosa que usei no início do artigo? Que cada um tem sua missão (e vice-versa)?
Não me tomem por um geólogo descrente de tudo, até entendo que as coisas andam relativamente estranhas e que tem uma turminha acreditando mesmo que o manual vai resolver todos os problemas e que Deus vai dar uma ajudinha nos trabalhos sofríveis que estão apresentando.
Podemos até tomá-los como sacrílegos de segunda-linha, até existem piores transitando pela medicina e pela política.
Ainda assim blasfemam em vão, elegeram como bíblia o livro errado ou apoiam-se em um alcorão que não existe e sequer têm a pachorra de se dedicar ao estudo da palavra que proferem.
Em sua autobiografia o ex-tenista profissional Andre Agassi escreve, em outras palavras, que um dos adversários que mais o incomodavam era o seu compatriota Michael Chang.
A razão para tal incômodo não poderia ser mais prosaica, Chang levantava as mãos ao céus em agradecimento ao Divino a cada vitória que obtinha.
Agassi não quis demonstrar qualquer sinal de discriminação religiosa ao revelar sua ojeriza pelo oponente, o argumento que fundamenta sua crítica é a de que Deus teria coisas mais importantes a fazer do que se concentrar em uma partida de tênis. E mais, custava a acreditar que Deus estaria deliberadamente tomando partido a favor de um de seus filhos em uma mera partida de tênis.
Talvez ele também se sentisse assim como hidrogeólogo ao ouvir aquela frase quase já famosa: “fiz assim como está no manual”.
Ó profissionais de pouca fé…

Publicado por Era da Água em setembro 26, 2011 às 11:16 r r
E quanto à biblia? O que devo fazer?
Publicado por ferlinisalles em setembro 26, 2011 às 12:26 r r
Grande Everton, não sei se já estou preparado para ministrar conselhos sentimentais e religiosos via blog, risos. Aliás, não sei se um dia estarei.
Um abraço.
Publicado por Marcio Costa Alberto em setembro 7, 2011 às 20:32 r r
E o pior é que já tem consultor que também não “copiava” o Manual (ou a Bíblia, como quiserem chamar), e agora está seguindo rigorosamente, somente para não receber comentários negativos nos pareceres técnicos do órgão ambiental. Ai, Deus, os que ainda tinham fé, estão se convertendo, e pagando o dízimo!!!
Publicado por ferlinisalles em setembro 10, 2011 às 23:16 r r
Quem? Fiquei curioso. Abraços.